Exposições

Ana Jotta

INVENTÓRIA

20.10.2019 – 8.03.2020

 

Entramos na casa. Está vazia. O dono acabou de se mudar ou então está prestes a mudar-se. Nenhuma cama, nenhuma mobília, nenhuns livros. Vêem-se uns quantos objectos, três candeeiros, algumas decorações, uma pequena mesa de jogos e um sem-número de estranhos rabiscos nas paredes.

 

“Viver é deixar traços”, diz Walter Benjamin quando discute o nascimento do interior doméstico. “No interior, eles são acentuados. É criada uma abundância de coberturas e protectores, revestimentos e caixas, nos quais os traços dos objectos de uso quotidiano ficam gravados. Os traços do ocupante também deixam a sua marca no interior. A história de detectives que segue esses traços ganha forma. (…) Os criminosos dos primeiros romances policiais não são nem cavalheiros nem apaches, mas membros da burguesia.”
A obra de Jotta está inseparavelmente ligada ao interior – à sua casa, que como uma grande obra de arte se assemelha a uma construção algures entre o Merzbau de Schwitters, o Wunderkammer, ou a casa-atelier de Dieter Roth, repleta de coisas e obras de arte, onde é impossível distinguir o estatuto de cada uma delas, e onde também é quase impossível movermo-nos, dominada que ela está por um total horror vacui. Na exposição INVENTÓRIA, Jotta constrói um cenário invertido: o amor vacui e o vazio tornam-se o tema principal desta instalação radical. Como a artista sugere na “folha de sala” que escreveu para acompanhar a exposição, entramos num “programa de filmes à la Salle Noir” em quatro actos, um enigmático cenário de filmagens com uma última contredanse dançada num baile desconhecido, talvez na Villa Santo Sospir, talvez na Casa São Roque.
Através de uma discreta apresentação de obras suas que fazem parte da colecção de Peter Meeker (Pedro Álvares Ribeiro), assim com de intervenções site-specific, Jotta visita a velha casa que esteve abandonada durante muitos anos, agora restaurada pelos novos inquilinos e transformada num novo centro de arte contemporânea. Jotta refere-se directamente a este momento de transformação. O espaço de habitação mudou de função e torna-se gradualmente um espaço artístico, permanecendo “anti-cubo branco”, definido pela sua anterior função de morada e pelos rastos dos antigos donos que nunca conhecemos.
A história da Casa São Roque (antiga Casa Ramos Pinto) remonta a 1759, altura em que, fazendo parte da Quinta da Lameira, funcionou como mansão e pavilhão de caça, como era típico na burguesia e nas famílias nobres do Porto. No século XIX, pertenceu à família de Maria Virginia de Castro, que em 1888 se casou com António Ramos Pinto, um dos mais conhecidos produtores e exportadores de vinho do Porto. Pouco tempo depois, entre 1900 e 1911, ele encomendou ao arquitecto José Marques da Silva a remodelação e expansão da casa, ao mesmo tempo que Jacinto de Matos desenhou o jardim. Em 1979, a toda a quinta e a casa foram adquiridas pela Câmara Municipal do Porto ao último dono, António Eugénio de Castro Ramos Pinto Cálem, neto de Maria Virginia e António. A mobília e os objectos mais importantes da casa foram preservados e ainda hoje estão em uso na colecção da Casa do Roseiral, enquanto o remanescente foi adquirido pela negociante de antiguidades Aurora Rodrigues Martins. O edifício mantém hoje o seu original estilo ecléctico, introduzido com a remodelação de Marques da Silva, que se inspirou nos historicismos franceses do século XIX e na art nouveau belga, tendo sido recentemente reabilitado sob a supervisão do arquitecto João Mendes Ribeiro.
Morar é deixar traços. Ser artista também é deixar traços. Por conseguinte, e uma vez que o seu trabalho é informado por este facto, Jotta deixou desenhos-surpresa, que “salpicam” toda a casa. Apropriando cenas da banda desenhada Krazy Kat, que transforma de maneira a parecerem feitos por crianças, trabalhadores, ou vândalos fortuitos, ela reverteu o famoso interior da Villa Santo Sospir, decorada e inteiramente “tatuada” por Jean Cocteau.
A exposição na Casa São Roque consiste também num conjunto de objectos produzidos por Jotta de forma caseira, artesanal, incluindo bordados, candeeiros, ou peças de cerâmica. Eles são coroados por uma placa onde está escrito Amor Vacui, que a artista trouxe da sua cozinha em Lisboa, aqui pendurada numa característica sala de jantar vazia, juntamente com o punho (O pai) e a cruz (A mãe) em substituição dos retratos de família que são habitualmente mostrados nesse tipo de salão burguês.
De forma indirecta, a exposição INVENTÓRIA e a sua montagem também prestam homenagem a Rua Ana Jotta, uma retrospectiva do seu trabalho que teve lugar em 2005 na Casa de Serralves e que, nas palavras de João Fernandes, transformou esta na Casa de Ana. Curiosamente, muitas das peças de Jotta expostas na Casa São Roque foram adquiridas por Peter Meeker (Pedro Álvares Ribeiro) após ter visto esta exposição, tendo sido posteriormente depositadas, juntamente com outras partes da sua colecção, no Museu de Serralves, onde encontraram a sua casa durante vários anos.
Qual é a primeira coisa que fazemos quando deixamos uma casa ou mudamos para uma nova casa? É claro, fazemos um inventário. Um inventário tem uma potencialidade objectiva, “não-determinada”. E o que é que fazemos a seguir? Instalamo-nos e decoramos a casa. São também estes os métodos de Ana Jotta. A casa torna-se uma obra de arte.

 

INVENTÓRIA é o primeiro capítulo de uma série de exposições na Casa São Roque com o título A Casa e o Atelier, que nas mostras colectivas que se seguem irá examinar o fenómeno das casas e dos ateliers de artistas – a relação entre o lugar onde a arte é feita e o lugar onde a vida é vivida.